Série Ausländer - Turcos na Alemanha
Alemanha

Série Ausländer - Turcos na Alemanha

Celso Celso Fernandes
18 de novembro de 2016
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Continuando a nossa série...semana passada eu escrevi sobre como a Alemanha veio a ser um país de imigração, explicando o como e o porquê das ondas de imigração terem se iniciado. Eu explicitei também os principais grupos de estrangeiros que imigraram para a Alemanha durante a época do Wirtschaftswunder e disse que esta semana eu iria focar mais no maior destes grupos de estrangeiros: os turcos. O post desta semana vai ser completamente contruído em cima do post de semana passada, portanto se você está chegando agora e ainda não sabe o que foi o Wirtschaftswunder ou o que é um turco, sugiro que antes dê uma lida no post anterior - Como a imigração na Alemanha começou.

Durante a década de 60 e 70 a Alemanha foi pressionada (contra sua vontade ) pelos EUA e pela própria Turquia para dar preferência aos imigrantes turcos que desejassem vir trabalhar na Alemanha. Estes, então, passaram rapidamente a encabeçar o volume de Gastarbeiter entrando no país. Eles eram em sua maioria homens com baixo nível de qualificação e deveriam trabalhar na Alemanha por um período de 3 anos antes de retornar para a Turquia cedendo lugar para novos imigrantes. Muitos destes homens possuíam esposa e filhos e deixaram a sua família para atrás na esperança de batalhar uma vida melhor na Alemanha.  Infelizmente a recuperação econômica da Turquia não obteve o sucesso esperado e muitos destes trabalhadores turcos simplesmente optaram por permanecer na Batatolândia ao invés de retornar para a Turquia no prazo esperado de 3 anos. Com isso a permanência destas pessoas na Alemanha deixou de ser uma situação temporária para ser uma situação permanente e muitos optaram também por trazer suas mulheres e filhos.  O resultado foi um crescimento geométrico da população turca na Alemanha que por sua vez veio acompanhada de alguns problemas...

Se por um lado a Alemanha não tinha um plano sólido para integrar estas pessoas, do outro os turcos simplesmente não queriam deixar-se integrar. A maior parte destes turcos eram muçulmanos, que trabalhavam, viviam, casavam e socializavam apenas entre si. Além do mais eles eram mal qualificados e não dominavam o idioma alemão. Este fechamento da sociedade turca pelos turcos traria  consequências graves  pra segunda geração nascida já na Alemanha.

A primeira geração de crianças turcas nascidas na Alemanha frequentavam escolas alemãs, porém seus pais não dominavam o idioma alemão e mal podiam auxiliá-las com as tarefas de casa, por exemplo. Esta geração, então, passou a viver com um pé em cada mundo, tendo dificuldades em se adaptar e obter sucesso nos estudos. Este problema ficava mais acentuado ainda com o sistema de ensino alemão que seleciona e faz uma triagem escolar dos alunos de acordo com o seu rendimento. Para ter acesso ao ensino superior é preciso frequentar o ginásio que por sua vez era privilégio apenas dos melhores alunos.

Um outro problema que a nova geração de turcos nascida na Alemanha enfrentou foi uma falta de identidade. Eles não eram considerados alemães, pois aqui reina o sistema Jus Sanguinis. De acordo com este sistema para ser considerado alemão não basta apenas que o indivíduo seja nascido na Alemanha (Jus Soli), é preciso também ter ancestrais nascidos em território alemão. Alguns até resolveram retornar para a terra de seus pais, porém lá foram descriminados por não serem totalmente turcos.

Hoje, quarenta anos após a primeira onda de imigrantes, a contribuição turca para população e para sociedade alemã é indiscutível.  No momento cerca de 3 milhões de turcos vivem legalmente na Alemanha. Destes 3 milhões, cerca de 500.000 vivem em Berlin.  Desde 2005 o número de turcos entrando na Alemanha é menor que o número de turcos voltando para Turquia. Ou seja, esta ocorrendo um "desenturcamento" da Alemanha. Apesar disto, eles ainda estão presente em todas as partes e qualquer cidadezinha aqui vai ter pelo menos uma loja de Kebab ou um mercadinho de esquina turco.

Apesar dos turcos terem se aproximado mais dos alemães, ainda existe um enorme vácuo entre estes dois povos e um relativo preconceito do alemão para com o turco. O motivo para isso ainda está na mentalidade dos dois povos. O alemão é muito regrado, enquanto o turco costuma ser muito mais espontâneo em todos os sentidos da vida.

Os turcos adoram fazer negócios apenas entre si e os alemães evitam ao máximo fazer qualquer tipo de negócio com turcos, por considerá-los deshonestos. Além do mais os turcos são considerados violentos, pois têm um temperamento arretado e sempre andam em bando. Muitas boates aqui na Batatolandia costumam negar entrada para turcos. Eu ainda vou falar MUITO sobre isso num próximo post.  Esta discriminação até é um pouco fundamentada, pois quase todas as vezes que acontecem brigas em boate, vai quase sempre ter um turco no meio. Eles também são um povo muito mais alegre e expressivo que o povo alemão e estão sempre falando alto no ônibus ou no trem, o que acaba com o pouco humor de qualquer alemão.  Em alguns aspectos eles até se parecem muito com os brasileiros. Até os dizeres e piadas deles se parecem muito com as nossas.

A minha experiência com turcos na Alemanha sempre foi amarga-doce. Eu inclusive já trabalhei  para um chefe turco. Eu lembro que na época eu precisava muito do emprego para poder ajudar a minha ex-namorada a pagar o curso de alemão dela e para mobiliar o nosso novo apartamento. De fato, aquele era o meu segundo emprego, pois eu trabalhava também como assistente num departamento da universidade aonde também estudava. Eu chegava na empresa turca as 16 horas já cansado e perdi conta de quantas vezes eu fiquei sentado lá até quase as 23 horas programando.  Lembro que eles eram muito desorganizados e todo projeto que eles me passavam era sempre pra ontem. Além do mais, quando chegava no fim do mês eu tinha sempre que cobrar o meu próprio salário. Ele sempre "esquecia" de me pagar ou atrasava o meu salário dizendo que houve um problema no banco. Curioso era apenas o fato que os alemães que lá trabalhavam recebiam todos sempre em dia! Eu devia ser muito azarado mesmo, pois os problemas só ocorriam na hora de fazer a transferência para a minha conta!

Realmente quando o assunto é dinheiro ou fechar negócios, é preciso sempre manter um olho aberto com os turcos. Hoje eu acredito fielmente que só mesmo um turco consegue fazer um bom negócio com um turco! Mas apesar de todos estes estereótipos, existem sim muitas exceções. Acho que o melhor conselho que eu já recebi em todo os meus 5 anos de Alemanha veio de um turco e ele nem me cobrou por isso...WOW! Além do mais, todas as vezes que eu precisei de ajuda com trabalho no apartamento ou de um favor inconveniente de se pedir fui sempre ajudado por um turco. Nessas horas meus amigos brasileiros jogavam uma bomba ninja e sumiam de vista, reaparecendo magicamente um segundo após eu não precisar mais deles.

Estando na Alemanha ou em qualquer outro lugar do planeta, o melhor mesmo é não julgar as pessoas pelas suas origens. Como brasileiro, eu não me considero preconceituoso contra estrangeiros e nem acredito que o Brasil seja um país hostil para com estrangeiros. Muito pelo contrário! No Brasil, costumamos celebrar e receber muito bem nossos estrangeiros, imediatamente compartilhando nossas bebidas,  nosso dinheiro e até nossas mulheres com todos eles. Independente do seus países de origem. Por conta disso, eu me irrito profundamente quando alguns brasileiros chegam aqui na Alemanha e antes mesmo de aprenderem a falar o alemão, aprendem a falar mal de turco. Até duas semanas  antes de chegarem na Alemanha não sabiam nem o que era um turco. Se bobear achavam que turco era sinônimo de árabe e ficariam felizes da vida de compartilhar uma cerveja com qualquer turco que encontrassem visitando o Brasil. Mas chegam aqui, esquecem que também são estrangeiros e logo absorvem o que o alemão tem de pior...o preconceito.

Bom gente...este terceiro post vai ficando por aqui. A série agora vai começar a tomar uma curva diferente a medida que eu vou começando a falar muito menos de história e dados para começar a comentar algumas experiências que tive por aqui. Desejo a todos vocês um excelente fim de semana e nos vemos em breve!

 

Série Ausländer - Como tudo começou
Série Ausländer - Dois Tipos de Alemão
Celso Fernandes
Celso Fernandes
Autor

Engenheiro, empreendedor e programador de fim de semana.  Natural de Petrópolis, RJ. Trinta e poucos anos de idade e há dez anos vivendo na Alemanha. Escreveu o primeiro post no Batatolandia em 2008 e desde então não parou mais. Adora responder perguntas 

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