Meus favoritos ( 0 )
Série Ausländer - Boates na Alemanha
Sociedade

Série Ausländer - Boates na Alemanha

Celso Celso Fernandes
18 de novembro de 2016
11

Oi gente,

Espero que vocês estejam bem. Eu ando extremamente ocupado com o trabalho e com outras coisas que ando fazendo. O tempo aqui na Alemanha não passa, ele voa! É assim aí também? Ultimamente eu não ando mais contando os dias, eu conto as semanas!

Bom a boa notícia é que eu finalmente achei um tempinho e agora é hora de mais um posto da nossa série. Antes de começar, eu gostaria de agradecer o pessoal que tem comentado aqui. Muito obrigado pela audiência de vocês e pelo carinho. A Série Ausländer tem sido um sucesso trazendo mais e mais leitores a cada post. Eu adoraria ouvir a opinião de vocês, então continuem comentando. Qualquer crítica e ideia também será muito bem-vinda.

Bom...agora sem mais atrasos, vamos tocar esta série pra frente.

Este semana eu vou começar a falar de coisas mais pessoais e deixar um pouco de lado os detalhes históricos e sociais. Eu gostaria de começar falando da primeira vez que eu sofri preconceito na vida!

Eu vim para a Batatolandia com a minha ex-namorada em 2007. Nós moramos juntos aqui cerca de 3,5 anos e tínhamos um estilo de vida bastante caseiro. Acho que neste período nós saímos para curtir boates apenas uma ou duas vezes.  Portanto até o ano passado, a minha experiência com boates aqui na Alemanha era quase nula. Ano passado acabei ficando solteiro novamente e achei que deveria usar a oportunidade para sair mais com meus amigos e curtir a "Night" na Alemanha.  Eu comecei a minha investida saindo muito com amigos da faculdade e a gente ía quase sempre parar em festas dos alunos internacionais, aonde curtiamos bastante, gastávamos pouco e  nunca tivemos  nenhum  problema. Pouco tempo depois, comecei a ficar um pouco entediado daquelas festas do Erasmus e decidi me aventurar mais nos clubs e boates da cidade...

Numa certa noite dessas de sexta....ou sábado, resolvi sair com um amigo brasileiro para conhecer uma boate muito frequentada em Braunschweig.  Quando chegamos no local já havia uma fila formada na porta e a gente ficou ali esperando a nossa vez e falando da vida, da noite, dos planos. Eu ainda não sabia, mas uns minutos depois aquela noite tomaria um rumo que a minha vida até então nunca havia tomado. Nem aqui e nem em qualquer outro lugar...

A medida que fomos chegando perto da portaria, os dois seguranças na porta começaram a olhar para a nossa cara. Eu lembro que até olhei para atrás um pouco assustado, achando que deveria ter um terrorista bem ali atrás de mim. Depois de poucos momentos, percebi que o terrorista era meu colega e eu!  Antes mesmo de podermos desejar boa noite ou falar qualquer coisa, os dois brutamontes já foram expulsando a gente da fila e impedindo a nossa passagem. Eu fiquei ali em pé olhando para a cara dele esperando alguma explicação. Tipo algum feedback ou pelo menos um pedido de desculpa.  Eles não disseram nada...apenas falaram que a gente não tinha nada a ver com o local: “Ihr passt hier nicht”!

Brother...nós ficamos ali na porta da boate calados. Eu não sei bem o que o meu amigo estava sentindo, mas eu estava sentindo ódio, vergonha, constrangimento..tudo de uma vez. Tentei me acalmar dizendo pra mim mesmo que a boate deveria estar lotada e por isso fomos barrados, porém logo depois chegou um grupo de Alemãozinhos e tiveram entrada na hora! Resolvemos ir pegar uma cerveja e esfriar a cabeça. No caminho para a loja, encontramos duas amigas alemãs que sugeriram tentar entrar de mão dadas com a gente pra ver se a gente passava. Infelizmente nós dois fomos barrados novamente, enquanto as meninas passaram. Resumindo...a minha noite acabou depois desta segunda tentativa e eu achei melhor mesmo ir para casa.

Lembro que fui para casa me sentindo um lixo e no dia seguinte fiquei tentando achar explicação para o que havia acontecido e porque havíamos sido barrados. Nesta hora, você sempre tenta afastar o problema de você e resolvi pensar que o problema era o meu amigo que estava vestindo uma dessas calças jeans todas rasgadas e com a barba para fazer. Eu também não estava super bem vestido, então resolvi que o problema todo deveria ter sido a nossa “falta de trajes”.  Até então, eu nunca havia sido barrado de lugar algum e estava acostumado a frequentar as melhor boates no Rio de Janeiro. Eu tinha acabado de voltar de uma temporada em Shanghai, aonde curti algumas das melhores e mais chiques festas que já havia visto. Nenhum problema...todas as portas abertas!

Algumas semanas se passaram e eu voltei a sair com uns amigos portugueses e um italiano. A noite havia sido bem divertida e resolvemos encerrá-la numa boate ao lado daquela que eu havia sido barrado. Mais uma vez ,havia uma pequena fila e a gente ficou ali esperando a nossa vez de maneira até bem comportada. Finalmente chegou a nossa vez, o segurança olho pra gente, chamou um outro, tivemos que apresentar passaporte e ainda explicar o que fazíamos na Alemanha.  Os portugueses e o italiano acharam aquilo estranho, mas eu achei um absurdo.  Até entendo que eu tenha que dar satisfação para a mulher que cuida do meu visto no Ausländerbehörde, agora dar satisfação para um porteiro de boate, achei um pouco fora de lugar.

Tudo isto aconteceu entre abril e junho de 2011. Depois disso, eu fiquei um tempo sem frequentar boates na Alemanha por motivos óbvios. Resolvi me dedicar mais aos estudos e fiz uma visita de 2 meses a minha família no Brasil.  Em novembro de 2011, porém, recebi a visita de um amigo brasileiro que estava aqui a trabalho por uma grande empresa alemã. Ele tinha o fim de semana livre e resolvemos ir com mais um brasileiro conferir a noite na Reeperbahn em Hamburgo.

 Para quem não sabe, a Reeperbahn é o ânus da Alemanha. Trata-se  da versão alemã do Red Light District em Amsterdã. Ali você encontra puteiros, boates, bares, restaurantes e Sex Shops. Depois das 22 h a rua pertence aos bêbados, zumbis, turistas e desafortunados. Havíamos escolhido ir para lá, pois Hamburgo é uma cidade grande e talvez ofereceria uma Night mais democrática e mais interessante. Após dar uma volta pela rua, escolhemos uma boate cujo nome me foge agora. Pagamos os 10 EUR de entrada e fomos até muito bem recebidos pelos seguranças. O problema todo era que a boate estava as moscas...completamente vazia! O ambiente era melindroso e lembrava um cabaret  de caminhoneiro da BR-040. Após 10 minutos  resolvemos sair de lá,  contornar a rua e tentar uma das boates na avenida principal.

O que aconteceu depois foi e é até hoje o momento mais baixo da minha vida. E eu acho que da vida dos meus outros dois amigos também. Logo que fomos chegando na porta da boate, vieram 2 seguranças dizer que não podíamos entrar. O meu amigo que estava aqui de passagem não acreditou que aquilo era real e começou a questionar os seguranças quanto aos motivos. Infelizmente ele não falava alemão e o segurança não entendia inglês. Eu e o outro brasileiro que também é macaco velho na Alemanha resolvemos então começar a questionar em alemão e a situação deu uma escalada. Como o colega que começou a questionar tinha uns 2 metros de altura e nós 3 éramos maiores que os 2 seguranças que estavam na porta, logo veio reforço lá de dentro. Ninguém encostou em ninguém, mas a tensão acumulou. Acho que todos estavam esperando pra ver quem daria o primeiro golpe. Eles queriam a gente fora da calçada e a gente questionava a autoridade deles sobre a rua. Finalmente eu chamei um dos seguranças de lado e comecei a conversar com ele em alemão na boa. Disse pra ele que a gente não tava querendo confusão. Tínhamos viajado 300 KM pra sair lá na cidade e não queríamos ser barrados. Ele olhou pra mim e disse: Filho...vocês não podem entrar. É a ordem que nós temos. Quando eu perguntei porque, ele simplesmente tirou o chapéu, esfregou o dedo na cabeça e disse: "Por causa da cor do seu cabelo e dos seus olhos..."

Naquele momento, a minha raiva passou. Estranhamente eu não queria mais discutir. Chamei os meus dois outros amigos e fomos embora. Eu comecei a rever os eventos daquela noite. Todos os 3 seguranças que vierem nos barrar eram estrangeiros, turcos ou negros. Lembrei daquela noite lá em Braunschweig. Os segurancas lá provavelmente eram russos ou poloneses ou turcos ou no mínimo alemães do leste.  Que bosta de trabalho deve ser. Imaginei o chefe deles falando para eles:

- Não deixe ninguém  entrar aqui que se pareça com você!

Depois deste episódio em Hamburgo eu nunca mais voltei a sair em boate na Alemanha. Aliás...voltei sim. Faz pouco tempo saí com a minha namorada em Hannover e visitamos vários clubs sem qualquer problema. Acho que o que eles patrulham mesmo são grupos homens estrangeiros....ou melhor...grupos de homens negros ou morenos. Estranhamente homens asiáticos não costumam ter problemas com isso. Será que os seguranças não tem medo de Kung Fu?

Mas sério...depois destes acontecimentos eu acabei formando uma opinião um pouco egocêntrica de algumas boates na Alemanha.  Eu penso o seguinte: Eu sou uma pessoa educada, domino vários idiomas, tenho meus princípios, estudei numa das melhores universidades da Alemanha e tenho o meu trabalho. Pago as minhas contas, já vivi em quase todos os continente deste mundo e tenho amigos espalhados por todo este planeta. Nunca agredi ninguém e nem está nos planos começar a fazer isto agora. Se um segurança de uma boate desconhecida, analfabeto-funcional, com segundo grau incompleto, olha pra minha cara e diz que eu não pertenço ali...então ele tem toda razão.  Afinal de contas ele já deve estar ali a vida toda e provavelmente irá passar o resto da vida fazendo aquilo.

Aliás...quem já viveu as noites do Brasil, dos EUA, da Espanha ou de alguns outros países não perde nada ao ser barrado nas boates da Alemanha.  Eu vou fazer um post no futuro falando disso. Mas por hora, saiba que a música é péssima e se você partir para cima da mulherada vai parecer um tarado, pois será o único fazendo isso.

Em geral, se você não é loiro de olhos azuis e nem tem cara de gringo, eu recomendo que você evite tentar entrar em boate acompanhado de outros estrangeiros. Se tiver amigos alemães, tente ir com eles. Se tiver uma amiga ou namorada, entre com ela. Mas faça o que você fizer, não dê satisfação de sua vida para gente que tem o poder mínimo de abrir e fechar uma porta de boate. Se algum dia você estiver na Alemanha ou de fato em qualquer outro lugar e passar por uma situação dessas, leve com humor. Lembra daquilo que escrevi ali em cima: O cara vai ficar em pé naquela porta o resto da vida.  Ele precisa fazer alguma coisa pra aparecer para as garotinhas da fila. Uma coisa que eu absolutamente não recomendo é chamar a polícia. Aqui na Alemanha este tipo de coisa é normal e os policiais irão sempre tomar o lado dos seguranças. Todo mundo vai dizer que você está alterado, blah blah blah. Se este tipo de coisa te incomoda, então só existe uma solução: AEROPORTO.   Não adianta. As coisas são assim na Alemanha. é o jeito que eles pensam e é o jeito que eles são.

O mais curioso é que algum tempo depois eu conheci um dos gerentes da boate aonde havia sido barrado meses antes. Estávamos todos conversando numa mesa aonde só tinha alemão. Daí quando ele começou a falar do trabalho,eu esperei aquele momento oportuno pra perguntar quando ele iria pendurar a Suástica na porta do club! Desta forma nós estrangeiros não perderíamos mais nosso tempo na fila. Nem preciso dizer que ficou aquele silêncio escroto,né? Os alemão ficaram olhando para o nada por alguns segundos como se eu tivesse falado um absurdo que ninguém soubesse do que eu estava falando. Algumas pessoas ficaram vermelhas e o cara desmontou. Depois me arrependi de ter causado o mau-estar. Mas quer saber? Pelo menos agora ele tem um motivo de verdade pra me barrar.

Bom gente...este foi mais um post da série. Desculpa ter ficado um pouco grande. Vou tentar escrever outro neste fim de semana para deixar as coisas em dia. Este será o sexto post de uma série de 10. Estou preparando uma surpresa para o último post, então fiquem atentos. Mais uma vez obrigado pelos comentário! Da terra de onde se planta banana e sai batata...Adiós amigos!

Dia da Unidade Alemã
Série Ausländer - Ser brasileiro na Alemanha
Celso Fernandes
Celso Fernandes
Autor
Engenheiro, empreendedor e programador de fim de semana.  Natural de Petrópolis, RJ. Trinta e poucos anos de idade e há dez anos vivendo na Alemanha. Escreveu o primeiro post no Batatolandia em 2008 e desde então não parou mais.

Comentários

Cadastro