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As residências de Hitler em Munique
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As residências de Hitler em Munique

Batatolandia Batatolandia Admin
2 de abril de 2021

Imagem: Celso Fernandes

[Na rota do mau]

Na rota do mau

Uma série dedicada a explorar e estudar sítios históricos relacionados ao Terceiro Reich.

Os dias ensolarados da primavera nos convidam a sair e até a sonhar com as férias de verão que estão próximas de chegar. Infelizmente, as atuais regras de distanciamento social na Europa podem desmotivar e até mesmo impedir alguns dos nossos planos de passar uns dias deitada debaixo de uma palmeira numa praia paradisíaca e com um cocktail na mão.

Se escapar não é uma opção, então que tal usar a oportunidade para conhecer um pouco mais da longa (e nem sempre feliz) história de Munique? 

Nesta matéria, nós visitamos todas as residências de Adolf Hitler em Munique e revelamos a história por trás de cada uma delas. Pegue a sua bike, siga a nossa rota e prepare-se para voltar no tempo conosco. Você nunca mais verá esses edifícios com os mesmos olhos!

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O quarto na Schleissheimerstr. (Maio 1913 até agosto 1914)

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Créditos: Batatolandia.de

Esta foi a primeira residência de Hitler ao chegar em Munique  no dia 25 de maio de 1913. Naquele lindo dia de primavera, Hitler respondeu a um anúncio nos classificados do jornal para alugar um pequeno quarto no apartamento do alfaiate Joseph Popp. O quarto ficava no terceiro andar de um velho edifício na Schleissheimerstr. , que por sua vez estava localizada numa parte pobre da zona norte da cidade de Munique. Apesar de tudo, o apartamento estava nos arredores de Schwabing - centro cultural, artístico e boêmio da cidade na época (Fonte: Hitler Biography - Ian Kershaw). 

Hitler não veio para Munique sozinho. Ele chegou de Viena acompanhado de um amigo chamado Rudolf Häusler. Häusler era do mesmo tipo que Hitler e ambos compartilhavam as mesmas opiniões políticas. Hitler convidou Häusler para viajar com ele até Munique e até ofereceu pagar os custos da viagem. Häusler não hesitou e os dois deixaram Viena após passar um mês aguardando o dinheiro de uma herança que Hitler recebera de seu pai. 

Anos mais tarde, Hitler revelaria para alguns confidentes que ele vira até Munique com o intuito de estudar design por uns três anos: “ eu queria participar de exposições e mostrar a todo mundo do que eu era capaz”. Infelizmente ele nunca teve sucesso e o fracasso também não desmotivou Hitler. Para ele, era suficiente estar na bela Munique dos seus sonhos: “ahh finalmente me encontro nesta cidade tão familiar e acolhedora. Até parece que passei a vida toda no coração deste lugar. Munique é uma cidade verdadeiramente alemã, a mistura racial de Viena já me dava náuseas” (Fonte: Corporal Hitler and the Great War 1914-1918: The List Regiment (Cass Military Studies)).

Aparentemente, Hitler era uma pessoa exaustiva e deixava a luz queimando até altas horas da noite enquanto recitava monólogos entediantes. Seu roomate, Häusler, não aguentou e mudou de quarto em fevereiro de 1914. Apesar disso, os dois continuaram amigos e Häusler até chegou assumir um cargo no partido nazista em Viena anos mais tarde (Fonte: Corporal Hitler and the Great War 1914-1918: The List Regiment (Cass Military Studies)).

A partir de fevereiro de 1914, Hitler passou a viver sozinho no quarto. Ele financiava o aluguel com os procedentes das vendas de pequenos quadros que ele mesmo pintava e vendia de porta em porta ou nas cervejarias da cidade. Segundo a proprietária do quarto, Hitler nunca recebeu qualquer visita nos 18 meses que ocupou o espaço, apesar de ser “um dos jovens mais bem educados que ela jamais havia conhecido”.

De fato, o depoimento da família Popp sobre Hitler é um dos mais inconsistentes jamais coletados. Por um lado eles diziam que Hitler passava semanas sem aparecer, mas de alguma forma eles também afirmam que Hitler conversava com eles sobre política todas as noites. Segundo os Popp, quando o inquilino não estava fora vendendo suas pinturas, ele estava trancado no quarto com o nariz “enterrado em livros”. 

As circunstâncias e a necessidade de ganhar o próprio pão provavelmente forçaram Hitler a passar boa parte do seu dia pintando e não lendo livros (como afirmou a Sra. Popp). 

De acordo com uma placa na fachada do edifício, Hitler morou ali desde a primavera de 1913 até o dia em que se alistou no exército alemão em agosto de 1914. De acordo com o relato escrito no livro “Corporal Hitler and the Great War 1914-1918: The List Regiment” de  Williams, a janela de Hitler era a terceira contando da esquerda no último andar:

“Pouco tempo após sua chegada em Munique, Hitler e Häusler se hospedaram num quarto do último andar do edifício 24 na Schleissheimerstr. Administrado pela família Popp. A Sra. Popp imediatamente aceitou e abrigou o charmoso austríaco. O Sr. Popp, que havia trabalhado em Paris e se considerava um homem altamente vivido, afirmou que Hitler era extremamente respeitoso e possuía um caráter extremamente promissor“.

Curiosamente, Hitler não foi o único ditador do século 21 a morar na Schleissheimerstr. Alguns anos antes, Lenin havia habitado um quarto a aproximadamente um bloco de distância. 

A Schleissheimerstr. dos dias de hoje ainda se parece muito como era na época de Hitler (e Lenin). A rua continua estreita e o playground que Hitler usou como inspiração para um dos seus quadros ainda existe do outro lado da rua. 

Endereço: Schleißheimer Str. 34, 80333 München

A pensão na Thierschstrasse (Março 1920 até Outubro 1929)

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Créditos: Batatolandia.de

Em 31 de março de 1920, Hitler buscou abrigo numa antiga pensão na Thierschstrasse 41. Ele possuía apenas uns poucos míseros pertences: um boné, um casaco, uma jaqueta, uma calça, cuecas, camisa, meias, sapatos e um cheque de dispensa do exército no valor de 50 marcos. Na época, o bairro era extremamente pobre e o proprietário da pensão era de fato um judeu. Olhando para Hitler ao chegar na pensão em 1920, era impossível prever que nove anos depois ele sairia de lá como uma figura política relativamente conhecida (Fonte Hitler: A Study in Tyranny).  

O autor e ex-colaborador nazista Ernst Hanfstägln descreveu o quarto de Hitler em seu livro “Unheard Witness” publicado em 1957:

“Deprimente e decadente além da imaginação, semelhante a um quartinho de fundos de um pombal em Nova Iorque. A cama era larga demais para o quarto minúsculo e a cabeceira cobria parte da única janela que iluminava o espaço. O chão estava coberto com linóleo desgastado e havia um tapete bastante desfiado. O espaço restante era ocupado por uma cadeira e uma mesa rústica e mal acabada. Na parede oposta à cama ficava uma prateleira improvisada e mais nada”.

Mais tarde, os proprietários relataram que Hitler pagava seu aluguel pontualmente ( e às vezes até adiantado) e compartilhava o minúsculo espaço com seu pastor alemão chamado Wolf. 

O edifício da Thierschstrasse ainda existe até os dias de hoje com uma imagem da Virgem Maria olhando fixamente para a entrada. O quarto que foi de Hitler foi transformado em almoxarifado já que todos que moravam ali adoeciam e ninguém mais queria alugá-lo.

No livro “Germany’s Hitler” escrito por Heinz A. Heinz, o proprietário da pensão fez o seguinte relato sobre Hitler:

“Eu nunca tive muito envolvimento com ele (Hitler), pois não gostava de me envolver nos assuntos políticos e porque eu sou um judeu. Eu admito que eu até gostava do Sr. Hitler e as vezes que cruzei com ele na entrada do edifício ou nas escadas, ele sempre me tratou com respeito e nossas conversas foram prazerosas o suficiente. Nos curtos encontros que tivemos, eu não conseguiria notar que ele tinha uma opinião tão radical sobre pessoas como eu. Ele passava a maior parte do tempo fazendo anotações num pequeno caderno e estava sempre acompanhado de seu lindo pastor alemão”. 

“Hitler morou no meu edifício entre 1919 e 1929. O primeiro quarto que ele alugou foi o quarto de trás e mais tarde ele alugou um segundo quarto na frente para servir de escritório e quarto de estudos. O quarto de trás tinha aproximadamente 2.4 x 4.5 metros e era o quarto mais frio do edifício. Todos os inquilinos posteriores adoeceram ao morar lá, então nós resolvemos transformá-lo em armazém de lenha. O quarto da frente era um pouco maior e possuía uma janela longa e estreita. Ambos os cômodos eram humildemente mobiliados. O único luxo que o Sr. Hitler se permitia era uma bacia de água fria para lavar as mãos no quarto. (páginas 276-277)”

Hitler fez o seguinte relato após ser solto da prisão de Landsberg em 1924:

“Na porta do meu edifício na Thierschstrasse eu reencontrei camaradas como Fuess, Gahr e outros velhos fiéis. Meu quarto estava decorado com flores e laços (eu guardei uma delas). Meu cachorro pulou de alegria ao me ver e acabou me derrubando escada abaixo.”

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Créditos: Batatolandia.de

Ernst Hanfstägln, que foi um associado muito próximo de Hitler, relatou o seguinte após visitar o apartamento depois da guerra:

“Toda vez que passo pela Thierschstrasse, não consigo resistir a tentação de visitar o antigo quarto de Hitler no edifício 41. Nada mudou. A fachada continua a mesma. As bombas dos aliados nem conseguiram derrubar a estátua de porcelana da Virgem Maria na entrada.”

Endereço: Thierschstraße 41, 80538 München

Prinzregentenplatz (novembro de 1929 até 1939)

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Créditos: Batatolandia.de

À medida que a reputação de Hitler cresceu além de Munique e da Baviera, como chefe do partido que havia conquistado 12 assentos nas eleições do parlamento no ano anterior, Hitler buscou uma moradia mais representativa. No fim de 1929, ele deixou a pensão da Thierschstrasse e se mudou para um apartamento de nove quartos no segundo andar da  Prinzregentenplatz número 16. O publicitário, apoiador do partido nazista e mentor de Hitler, Hugo Bruckmann, serviu de fiador do imóvel.

O novo apartamento de Hitler, possuía 9 quartos, 2 cozinhas, 2 closets walk-in, 2 banheiros e já se encontrava totalmente mobiliado. O valor anual do aluguel era de 4,176 marcos e o contrato foi feito, a princípio, até abril de 1934. 

Durante algum tempo, Hitler viveu junto com sua querida sobrinha, Angélica Maria “Geli” Raubal, que cometeu suicídio neste apartamento sob circunstancias misteriosas pouco tempo depois em 1931. Após a morte da menina, Hitler ordenou que seu quarto permanecesse exatamente como ela o deixou. Ele recebeu a triste notícia quando estava a caminho de um discurso em Erlangen e retornou para Munique imediatamente. Hitler permaneceu de luto durante anos, entrando inclusive em depressão.

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Créditos: Axis Hitory Forum

Existe muita especulação sobre a natureza do relacionamento de Hitler com sua sobrinha. No livro “Adolf Hitler: A Biographical Companion”, Nicholls sugere que havia muita fofoca em volta do assunto. Já Machtan, autor de “The Hidden Hitler”, sugere que Hitler era de fato homosexual e por isso não havia sexo envolvido no relacionamento dos dois. De acordo com Christa Schröder, ex-secretária de Hitler, tio e sobrinha não tinham nenhum relacionamento sexual. Henrietta von Schirach, filha do fotógrafo pessoal de Hitler (Heinrich Hoffmann) e uma das melhores amigas de Geli, também afirmou que os dois nunca tiveram um relacionamento sexual. 

Segundo alguns psicanalistas que estudaram Hitler, como Walter C. Langer e Toland, a natureza do relacionamento entre Hitler e Geli era platônico e seria sim muito possível que Hitler nunca tenha "consumado" o fato. 

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Créditos: Life Magazine, 28 de maio de 1945

A residência na Prinzregentenplatz passou a perder importância após Hitler assumir o poder em 1933. O ditador, que agora passava a maior parte do seu tempo em Berlim ou no seu refúgio em Obersalzberg, visitava Munique apenas esporadicamente. Em 1937 ele ordenou que uma cerca fosse construída na frente do edifício para impedir que seus fãs o cercaram. Com o início da Segunda Guerra em 1939, Hitler abandonou a residência completamente e o edifício chegou a sofrer leves danos durante um bombardeio aliado. 

Hoje, o edifício na  Prinzregentenplatz 16 serve de sede da polícia de Munique (Polizeiinspektion 22).

Endereço: Prinzregentenpl. 16, 81675 München

A casa de Eva Braun

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Créditos: Batatolandia.de

Após a segunda tentativa de suicídio de Eva, Hitler ficou preocupado e sentiu necessidade de mostrar para Eva que ele a amava.  Hitler ordenou que Heinrich Hoffmann, seu fotógrafo,  adquirisse uma casa pela fabulosa quantia de $30.000 e a presenteasse a Eva Braun como recompensa pelos milhões que ele acumulou vendendo as fotos de Hitler tiradas por Eva.  Em 1936, Eva se mudou para esta casa com suas irmãs. O imóvel fica localizado na então Wasserburgstrasse 12, hoje conhecida como Delpstraße.    

Em abril de 1945, um grupo de soldados americanos invadiu a residência e os pertences pessoais de Eva foram levados para os Estados Unidos. Após a invasão, a casa ficou completamente vazia. Em 2015 o imóvel foi demolido para dar lugar a uma nova construção.

Em filmagens antigas, Eva Braun pode ser vista brincando no jardim com o cão pastor de Hitler na Wasserburger Strasse 12 ou rindo no portão quando saía para falar com amigos em frente à casa. Ela viveu aqui por mais de dez anos - e Hitler a visitava constantemente.

Ele supostamente sempre se sentava em uma poltrona azul na sala de estar em frente à lareira que tinha o monograma dela gravado nos ladrilhos. O quarto do casal também era todo azul. Na cabeceira da cama havia um telefone com linha direta para a Chancelaria do Reich de Berlim e para o "Berghof", a casa de campo de Hitler em Obersalzberg.

A casa tinha um bunker com ar filtrado - caso Eva Braun precisasse se proteger de um ataque a bomba. No portão da casa, Hitler construiu uma torre de guarda com lacunas para metralhadoras.

Hitler conheceu Eva Braun em 1929 no estúdio do seu fotógrafo Heinrich Hoffmann. Após a morte de sua sobrinha Geli, Hitler se aproximou mais de Eva e os dois começaram a se relacionar secretamente. Hitler se casou oficialmente com Eva em 29 de abril de 1945 no bunker em Berlim. Os dois cometeram suicídio no dia seguinte, pouco tempo antes dos soviéticos tomarem Berlim.

Em filmagens antigas, Eva Braun pode ser vista brincando no jardim com o cão pastor de Hitler na Wasserburger Strasse 12 ou rindo no portão quando saía para falar com amigos em frente à casa. Ela viveu aqui por mais de dez anos - e Hitler a visitava constantemente.

Ele supostamente sempre se sentava em uma poltrona azul na sala de estar em frente à lareira que tinha o monograma dela gravado nos ladrilhos. O quarto do casal também era todo azul. Na cabeceira da cama havia um telefone com linha direta para a Chancelaria do Reich de Berlim e para o "Berghof", a casa de campo de Hitler em Obersalzberg.

Por muito tempo, ficou incerto o que seria da casa com sua história macabra. Em 1947, um casal de Washington passou a viver na casa. O nome "Braun" ainda estava escrito na campainha. Também havia muitos vestígios do proprietário anterior na casa: todos os livros, fotos e até os cabides estavam carimbados com seu nome: "Eva Braun, Munich, Wasserburger Straße 12".

Um morador da rua disse que durante décadas após a morte de Hitler, a casa era visitada constantemente por Neonazistas. Eles ficavam parados em frente à casa, faziam gestos nazistas, cantavam hinos nazistas e tiravam fotos. 

Por fim, uma senhora idosa habitou a casa. Depois que a mulher morreu, a mansão ficou vazia e em ruínas.

Políticos locais pediram às devidas autoridades para verificar se o imóvel poderia ser incluído na lista de monumentos. Mas um relatório detalhado chegou à conclusão: A casa definitivamente não é um monumento.

Durante alguns anos, a casa e a propriedade mudaram de mãos. O atual proprietário comprou de um médico, filho do último residente. O novo proprietário nunca pensou em uma reforma: “Mudar-me para esta casa nunca teria sido uma opção para mim!”, disse ele em uma entrevista ao Abend Zeitung (Fonte).

Em 2015, ele mandou demolir a casa. Depois disso, nada aconteceu no início - pelo menos não visivelmente. Pouco tempo depois, o atual proprietário construiu uma mansão completamente nova na valiosa propriedade em Altbogenhausen, onde vivem muitas celebridades.


Endereço: Delpstraße 10A, 81679 München

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