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O empreendedorismo brasileiro na Alemanha
Estudo & Carreira

O empreendedorismo brasileiro na Alemanha

Celso Celso Fernandes
10 de fevereiro de 2021

Imagem: Ingrid Vasconcellos

Nos últimos anos, a comunidade brasileira na Alemanha tem visto um aumento considerável na fundação de micro negócios tupiniquins no país. Este aumento se deu, em parte, pela chegada da terceira onda de brasileiros em terras germânicas. Este novo grupo de imigrantes é formado, em grande parte, por casais brasileiros de classe média que vieram para a Alemanha a trabalho. Enquanto uma das partes segue carreira e sustenta a família, a outra parte (em sua maioria mulheres) tenta se reinventar no empreendedorismo.

Desde 2016, o site BATATOLANDIA mantém um cadastro de profissionais e serviços brasileiros na Alemanha. Durante todo este tempo, temos acompanhado de perto o crescimento do número de micro empresas brasileiras e temos nos esforçado para categorizar e identificar padrões nas mesmas. Nesta matéria, explicamos um pouco sobre a formação e as características do micro empreendedorismo brasileiro na Alemanha. 

A fonte das ideias aqui apresentadas não possuem qualquer base acadêmica. Todos os dados citados são apenas o resultado de dezenas de horas de entrevistas com empreendedores brasileiros de toda a Alemanha, assim como a nossa própria experiência no empreendedorismo.

Quem são os empreendedores brasileiros na Alemanha?

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Créditos: Mateus Campos Felipe

Na última década, o empreendedorismo tem se tornado uma espécie de trend em todo o mundo. Fomentado pelas histórias de fama e fortuna vindas da América, muitos jovens têm buscado no empreendedorismo uma alternativa à tradicional carreira corporativa tão almejada por nossos pais. De fato, os heróis da atualidade não vêm mais das telas de cinema e sim de Silicon Valley (vide Ellon Musk, Steve Jobs e Mark Zuckerberg).

Se por um lado, a face do mega empreendedorismo é definitivamente masculina, a silhueta do micro empreendedorismo é certamente feminina. Cerca de 70% dos mais de 500 serviços e empresas cadastrados no BATATOLANDIA são oferecidos ou foram fundados por mulheres. Nas categorias “beleza“ e “bem estar” essa porcentagem atinge quase 100%. 

Enquanto as nossas meninas estão ensinando a feminilidade brasileira para as alemãs, os poucos homens que escolhem empreender na Alemanha estão concentrados nas áreas de advocacia, tradução, música e serviços em geral.

Durante o período que viajamos pela Alemanha entrevistando empreendedores para um documentário, conhecemos também casais que empreendem juntos. Esses atuavam principalmente na gastronomia ou organização de eventos. 

Tradicionalmente, o empreendedorismo tem como objetivo gerar lucro ao resolver um problema existente na sociedade, porém esse nem sempre é o caso no empreendedorismo brasileiro na Alemanha.

O empreendedorismo feminino na Alemanha

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Créditos: Bruno Dias

Esta enorme predominância feminina no empreendedorismo brasileiro aqui na Alemanha se intensificou com a chegada da terceira onda imigratória que citei no primeiro parágrafo desta matéria. Acontece que nos últimos anos, a demanda do mercado alemão por mão de obra qualificada, tem aberto portas para muitos brasileiros e brasileiras de classe média e de bom nível acadêmico. As ofertas de trabalho nas áreas de TI e engenharia na Alemanha (áreas predominantemente masculinas), aliadas à instabilidade crescente da vida no Brasil,  têm atraído muitas famílias brasileiras a trocarem picanha por chucrute. 

Evidentemente, este êxodo tende a beneficiar uns mais que outros e é bastante comum que num casal, uma das partes precise abdicar de sua carreira e planos no Brasil para apoiar o outro (ou outra) na decisão de começar uma nova vida aqui na Alemanha. Passada a novidade da chegada e a euforia de “viver na Europa”, a realidade desce como uma marreta na vida de quem deixou uma vida profissional ativa no Brasil para se dedicar ao lar num país estrangeiro. 

Características do empreendedorismo feminino

O micro-empreendedorismo brasileiro na Alemanha é liderado, em grande parte, por mulheres e possui um tom de empoderamento e auto-ajuda que o difere das tradicionais rodas de empreendedorismo masculinas.   O mantra aqui é “nós queremos, nós podemos, nós faremos”, porém ainda deixa muito a desejar ao apresentar estratégias e planos concretos de como fazê-lo. 

Os micro negócios femininos estão espalhados por uma gama de setores, porém podem ser classificados em três categorias: 

  • negócios plenamente estabelecidos,
  • negócios incertos / processo de formação e
  • negócios fantasia.

Negócios plenamente estabelecidos

Esses negócios são, em sua maioria, pequenas e médias empresas fundadas por brasileiras atualmente com mais de 40 anos de idade,  domínio bom ou no mínimo intermediário do idioma alemão e pertencentes à primeira ou segunda onda de imigração brasileira na Alemanha (entre 1980 - 2010). 

Muitos destes negócios surgiram sem qualquer planejamento, como por exemplo Business Plan, porém obtiveram sucesso por oferecer um serviço diferenciado dos já existentes na Alemanha. Bons exemplos são clínicas de estética e waxing, salões de beleza e empresas especializadas em negócios entre Brasil e Alemanha.  

Outra característica importante desses negócios é que eles são fontes genuínas de renda e permitem a total subsistência da empreendedora sem quaisquer auxílios do marido ou outras fontes de renda.

Negócios incertos ou em processo de formação

Esses negócios são, geralmente, frutos de brasileiras do fim da segunda onda e início da terceira onda de imigrantes brasileiras na Alemanha (a partir de 2010). Eles se caracterizam, principalmente, por serem fundados por imigrantes com menor grau de conhecimento do idioma,  porém com maior grau de escolaridade. Muitas dessas empreendedoras possuíam carreiras ou negócios próprios no Brasil e buscam métodos mais sofisticados para iniciar um negócio na Alemanha. 

O grande problema aqui é que muitas dessas pequenas empresas possuem modelos de negócio mais complexos que consistem em vender o Brasil para o alemão. Este é um processo demorado e com pouca probabilidade de sucesso. A coisa toda fica ainda mais complicada quando a pessoa que está executando o plano, reside há poucos anos na Alemanha, tem conhecimento limitado do idioma e da cultura do país. 

Apesar das empresas nesta categoria lançarem mão do que há de melhor em planejamento de negócios e terem nascido numa comunidade brasileira já muito mais estruturada em relação às da primeira onda, a maioria ainda não rende o suficiente para garantir a subsistência da empreendedora. Na maioria destes casos, a mulher ainda depende da renda do marido ou de apoio financeiro vindo do Brasil. 

Alguns exemplos aqui são serviços de consultoria,  psicologia, ítens de moda, bebidas, etc. Acredito que grande parte das empreendedoras brasileiras na Alemanha pertencem a esta categoria. 

Negócios fantasia

Os “negócios fantasia” ou as “empreendedoras fantasia”, são hobbystas ou donas de casa que encontram no “empreendedorismo“ uma forma de distração. É, acima de tudo, um mecanismo de auto-ajuda, já que o produto do trabalho tem muito pouco valor de mercado e não existe qualquer planejamento para torná-lo mais financeiramente viável. 

Para a empreendedora fantasia, lucro está longe de ser o principal objetivo. Inserção e integração são os sentimentos que as movem. Muitas vêem no movimento empreendedor feminista uma forma de ser parte de algo maior. 

Esta categoria de empreendedora é formada por mulheres de diferentes faixas etárias, entre 25 e 50 anos. Muitas fazem parte da terceira onda de imigrantes, enquanto outras estão a mais tempo na Alemanha e vêem no movimento uma oportunidade de se “reconectar” com a comunidade brasileira. Neste caso, o “negócio” inteiro consiste apenas de um logo e uma conta no instagram.

O que fazem as empresas brasileiras na Alemanha?

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Créditos: Caetano Salmeron

Ao longo dos últimos três anos monitorando e estudando o avanço do micro empreendedorismo brasileiro na Alemanha, podemos  identificar três categorias nas quais as micro empresas brasileiras podem ser facilmente categorizadas: 

  •  as que trazem o Brasil para os alemães,
  • as que levam a Alemanha para os brasileiros e
  • os mercadinhos da saudade. 

Observem, porém, que o termo “mercadinho da saudade” não é criação nossa. Ele já existia anteriormente e ouvimos pela primeira vez do Professor Eduardo Picanço Cruz da UFF

Perceba que além da categorização bastante abrangente citada no parágrafo anterior, mantemos uma categorização interna mais detalhada de todos os serviços e negócios cadastrados no site em relação ao campo de atuação. Por exemplo: bem-estar, saúde, educação, serviços, etc.

Brasileiros que trazem o Brasil para os alemães

São muitos os empreendimentos, principalmente femininos, que se especializaram em trazer o jeitinho e gostinho do Brasil para os alemães. Alguns exemplos clássicos são as esteticistas, manicures e cabeleireiras brasileiras que conquistaram espaço no mercado alemão por trazerem um serviço diferenciado dos alemães ou asiáticos que atuam no mesmo ramo.

Brasileiros que trazem a Alemanha para outros brasileiros  

Estes empreendimentos são geralmente escolas de idiomas, consultoria de importação/exportação, guias turísticos e agências de relocalização. O mercado encontra-se ainda bastante aquecido, porém com uma Alemanha cada vez mais “domada” e um enclave brasileiro cada vez mais estruturado, é difícil prever o futuro desses empreendimentos. 

Mercadinhos da saudade

Os “mercadinhos da saudade” são pequenas empresas que focam no público brasileiro na Alemanha. Aqui não há qualquer preocupação em adaptar um produto para o mercado alemão ou adaptar a Alemanha para o brasileiro. O foco principal é trazer produtos da nossa cultura brasileira e vendê-los a um preço competitivo para brasileiros que residem na Alemanha. Exemplos clássicos de mercadinhos da saudade são: online shops de alimentos, manufatura de salgados, doces e quentinhas.

O grande problema do mercadinho da saudade é que ele é muito competitivo, já que é relativamente simples de começar e requer pouco ou nenhum conhecimento de cultura alemã. Este mercado encontra-se atualmente aquecido, inclusive com participação de grandes players alemães, porém devido a sua simplicidade, ele tende a globalizar, diminuindo a margem de lucro de cada participante. 

O futuro do empreendedorismo brasileiro

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Créditos: Edu Lauton

Como vimos, o relevo do empreendedorismo brasileiro na Alemanha é bastante simples e composto por micro empresas desempenhando papéis e funções relativamente triviais. A Alemanha, no entanto, é um mercado altamente exigente e sofisticado. 

Ainda é possível sobreviver durante um tempo se apoiando apenas na demanda dos brasileiros que aqui se encontram. Esta, porém, é uma aposta arriscada, pois é apenas questão de tempo até que o mercado sature ou sofra concorrência de grandes players alemães. A rede de supermercados REWE, por exemplo, já possui muitos produtos brasileiros em seu online shop e startups alemãs estão usando mão de obra brasileira para criar produtos e serviços em português. 

 Se o empreendedorismo brasileiro na Alemanha vingará ou não, vai depender da sua capacidade de assimilar a cultura alemã e usar a sua criatividade brasileira para criar produtos realmente desejáveis para um mercado muito mais amplo.

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Celso Fernandes
Celso Fernandes
Autor
Engenheiro, empreendedor e programador de fim de semana.  Natural de Petrópolis, RJ. Trinta e poucos anos de idade e há dez anos vivendo na Alemanha. Escreveu o primeiro post no Batatolandia em 2008 e desde então não parou mais.

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